Homenagem a Bana: Coliseu de Lisboa aos pés do Rei da Morna

31 Mar 2012

A mítica sala de espectáculos lisboeta, local de consagração de artistas portugueses e não só, encheu na noite de sábado para um espectáculo comemorativo dos 80 anos de Bana e recordar os quase 70 anos de carreira de uma voz que marcou gerações de cabo-verdianos.

Não era a primeira homenagem ao cantor, feita em Portugal, mas era aquela que prometia maior grandiosidade, dada a saúde precária de Bana e o seu recente internamento hospitalar. Desta vez a festa reuniu amigos e admiradores na mais nobre das salas portugueses.

No palco estava uma banda de apoio coordenada pelo pianista Toi Vieira, com Vaiss à guitarra, Zé Luís no cavaquinho, Manuel Paris no baixo, Miroca Paris na percussão e Cau Paris na bateria; o maestro Albertino Monteiro dirigia uma orquestra de cordas e sopro, tudo isto emoldurado por um coro de jovens de origem cabo-verdiana, e que arrancou os primeiros aplausos do público presente.

Bana surgiu do fundo da sala e fez o percurso até à primeira fila sob um apoteótico aplauso da plateia de pé, para assitir àquela que poderá ser a última das suas homenagens na capital portuguesa.

A dupla de apresentadores da noite, o jornalista da RTP João Rosário e Celina Pereira, anunciaram os artistas e a festa teve início com Tito Paris, em tempos um dos pupilos de Bana.

Seguiram-se Nancy Vieira (deslumbrante num longo vestido branco de flores nos pés), Titina, Coimbra, Luís Fortes, José Rui de Pina (que veio de propósito dos Estados Unidos), Leonel Almeida, Jorne Neto (um dos maiores aplausos da noite, com 'Rosinha'),Dany Silva, José Baptista Silva (português, com uma das melhores interpretações de 'Maria Barbara' de que há memória) e Celina Pereira.

Ao longo da noite viajou-se por coladeiras e mornas gravadas por Bana, tornadas famosas por Bana, pela voz dos artistas convidados. O coro juvenil coloriu os refrões mais tradicionais, guiados pela batuta do maestro Albertino Monteiro, ao som de violinos e da orquestra, esta também rendida à voz uníssona da plateia, que cantava em coro mornas como "Nha Terra", "Tributo Final", etc.

O septuagenário comediante mindelense, Juca, acompanhado por Armando Tito na viola, brindou os presentes com um agradável número de stand-up comedy, onde cantou versões crioulas de músicas de nomes famosos, por entre estórias cómicas de crioulos na diáspora, sem deixar de recordar a amizade de muitos anos com Bana.

Bana, que finalmente subiu ao palco, quando já não se esperava ouvir a voz de 'Lena' ecoando pela sala, para cantar, com surpreendente fulgor, em dois duetos - primeiro com o fadista Carlos do Carmo ('Ondas sagradas do Tejo', que arrancou grande plauso da plateia) e com Lura ('Querida, se algum dia bo voltá pa Mindelo'), este último num registo enternecedor: duas vozes separadas por muitos anos, mas com a mesma emoção e mútua admiração.

Cantaram-se os parabéns a você 'ao menino Bana' e de seguida o cantor recebeu das mãos de Madalena Neves, embaixadora de Cabo Verde em Lisboa, o Prémio Carreira atribuído pelo Cabo Verde Music Awards 2012. Madalena Neves leu também uma comunicação do ministro da Cultura, Mário Lúcio, em que este considerou Bana "o maior de todos os ministros, eterno em cada um de nós e no eco das nossas ilhas".

Seguiram-se ainda mais duas distinções: uma por parte da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) pelo seu contributo para a "expansão da Lusofonia" e a sua carreira enquanto ponte entre a diáspora cabo-verdiana e as ilhas; e outra, pela mão de Leonel Almeida, atribuída desta vez pelos músicos que, ao longo dos anos, Bana foi trazendo para Portugal, e que se estabeleceram em Lisboa. Destes, quatro, curiosamente, estavam em palco: Tito Paris, Vaiss, Leonel Almeida e Manuel Paris.

A festa terminou já depois da 1h00, numa onda de grande emoção, gratidão e 'sodade', na plateia e no palco, com público, artistas e músicos reunidos em volta de Bana, num merecido tributo àquele que ainda é considerado por todos como o Rei da Morna.