Bana, 80 anos: Lisboa homenageia o cantor a 31 de Março

10 Mar 2012

Aquele que é reconhecido por todos como o Rei da Morna completou 80 anos no passado dia 5 de Março, mas a grande festa de homenagem ao cantor está marcada para o próximo dia 31 de Março, em Lisboa. São muitos os artistas a subir ao palco, que contará com uma banda de suporte orientada pelo pianista Toi Vieira, e o companhamento especial de uma orquestra.

Bana, 80 anos: Lisboa homenageia o cantor a 31 de Março

De facto, este é o mês em que a carreira de Bana (Adriano Gonçalves, de seu verdadeiro nome), um dos maiores nomes da música de Cabo Verde, é celebrado, como aconteceu este fim-de-semana, com a atribuição do Prémio Carreira, na cerimónia dos Cabo Verde Music Awards, na Praia.

Apesar das aparições esporádicas em palco - como foi o caso da homenagem a Titina, realizada em Lisboa -, a voz de Bana continua a encantar e a surpreender os seus admiradores, pela longevidade, firmeza e naturalidade com que interpreta mornas e coladeiras de outros tempos.

De forte personalidade e não poucas vezes controverso, Bana teve uma importância grande - e por vezes decisiva - na carreira de muitas figuras da música de Cabo Verde, que nesta hora de homenagem não deixam de revelar a sua gratidão.

Celina Pereira lembra-se que o seu primeiro dueto foi precisamente com Bana, num sarau musical, no Eden Park:"Eu ainda era uma jovenzinha, no final dos anos sessenta, quando Bana estava de regresso de Dacar, e tive a hora de cantar com ele; aliás voltámos a repetir esse facto, em 2010, em Lisboa, num espectáculo no Teatro São Luíz".

A cantora recorda que também gravou o seu primeiro disco, um 45 rotações, na editora Discos Monte Cara, fundada por Bana, em Lisboa:" Gravei-o a convite de Bana, foi o meu primeiro cartão de visita e o início da minha carreira discográfica; por isso tenho por ele uma dívida de gratidão", diz.

O trompestista, cantor e compositor Morgadinho (membro fundador do conjunto Voz de Cabo Verde e actualmente radicado em França), também de 80 anos, conheceu o jovem Bana muito cedo, como recorda: "Lembro-me dele com 13, 14 anos, em São Vicente, e não me esqueço como ele era complexado devido à sua estatura fora do normal."

"Por isso, Bana cantava um pouco às escondidas, tinha um certo complexo, mas tinha umas cordas vocais como ninguém e isso ajudou-o a prosseguir e a ter mais segurança; e Bana cantava de forma natural já nessa altura, e lembro-me de lhe ensinar como pronunciar as frases, a limar algumas arestas", recorda o músico que conviveu e tocou com Bana em Dacar, nos anos sessenta.

Leonel Almeida é outro dos músicos que recordam o impacto que Bana teve na sua vida: "Quando vim para Portugal, em 1974, eu não me considerava um cantor por aí além, nem artista; foi o Luís Morais quem me ouviu um dia num sarau musical do PAIGC e falou com Bana, que me pagou as passagens. Na altura eu queria seguir Belas Artes e Bana prometeu-me pagar os estudos, mas depois a música foi mais forte."

"Estou-lhe muito agradecido, para mim Bana tem sido um amigo, um pai, um irmão mais velho, um amigo. E a homenagem é mais do que merecida", responde o cantor, outro dos convidados da homenagem.

Para o pintor e professor António Firmino, o contributo de Bana para a divulgação da música cabo-verdiana em Portugal é imenso. "O Bana, principalmente nos anos sessenta e setenta, funcionou como um elo de ligação entre os emigrantes e Cabo Verde, quer através dos seus discos que ouvíamos nas festas ("Pomba", "Travessa di Peixeira", "Tchon bom di Mangui", etc), quer através das suas actuações em espaços como o "Andaluz", uma boite que ficava na calçada Marquês de Abrantes.

Nos últimos vinte anos, Bana terá sido o artista cabo-verdiano mais homenageado em Portugal, com medalhas de mérito e outras condecorações oficiais impostas por presidentes de Cabo Verde e de Portugal. Mas para Celina Pereira, homenagens a Bana "nunca são de mais", e para a cantora - que será apresentadora do espectáculo do dia 31 -, estas "devem ser feitas em vida e não postumamente, como é costume; acho muito bem que a façam."

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