As estórias de um rapaz tímido

19 Mar 2012

Em mais de sessenta anos de carreira, muitas são as estórias que se contam sobre Bana.. Uma das mais célebres ocorreu em Dacar, no Senegal, no início dos anos 60, logo no início das suas actuações na Boite Saloum, e serve para demonstrar a forma pragmática como Bana resolvia alguns assuntos do quotidiano. A outra, ocorrida no Mindelo ainda nos anos 50.

As estórias de um rapaz tímido

O sapato

Numa tarde de calor, Bana encontrava-se, em Dacar, com alguns patrícios cabo-verdianos em alegre confraternização, em meio de um jogo de cartas, na varanda. À falta de mais cerveja fresca o cantor chamou um garoto que andava por ali e deu-lhe uma nota para que fosse à loja comprar mais. O garoto regressou com as cervejas, mas o troco não batia certo.

O garoto respondeu que não havia mais troco, era tudo o que lhe haviam dado. Bana mandou-o ir novamente à loja dizendo-lhe que não, que faltava dinheiro no troco. O garoto saiu a correr e regressou, momentos depois: não há mais troco, dissera-lhe o dono da loja.

Bana sorriu, e sem perder o sentido do jogo das cartas que decorria sobre a mesa, baixou-se, descalçou um dos sapatos, e disse para o garoto: "Volta lá à loja e diz-lhe que o dono deste sapato exige o seu troco, i--me-di-a-ta-mente."

O jantar no Grémio

Em 1950, um grupo de 30, 40 estudantes universitários portugueses chegou a São Vicente. entre eles encontravam-se o futuro escritor e jornalista Fernando Assis Pacheco e o futuro poeta e político Manuel Alegre. Havia um jantar de honra no Grémio, clube da "boa sociedade" de então e muito restrito. Dias antes, quando à noite passavam pela Praça Nova, os dois estudantes ficaram encantados com um jovem muito alto que cantava com uma voz admirável.

De imediato o convidaram para cantar no jantar. Mas Bana, tímido como era, recusou. Eles insistiram e Bana respondeu: não tinha casaco. Isso arranja-se, responderam-lhe. Também não tinha sapatos. Também não era problema, disseram-lhe - comprar-lhe-iam um par novinho. Bana ficou sem saída possível.

Quando chegou o dia, Bana, nervoso, resolveu fingir um ferimento e ligou o pé com uma ligadura, e foi assim que os estudantes o encontraram em casa, deitado na cama. "Não posso caminhar nem ficar de pé", disse-lhes. "Nem pensar!" disseram-lhe, "você vai e canta sentado."

Anos mais tarde, quando alguém lhe recordou a história, Bana sorriu: "Só depois é que descobri que no meio daquele pessoal do Grémio não tinha rico nenhum."

Mas, para Leonel Almeida, a mais extraordinária das estórias de Bana, aconteceu há dois anos: "os médicos do Hospital da Luz deram-no praticamente como morto; a recuperação de Bana tem sido milagrosa, e os médicos não acreditavam depois que ele voltasse a cantar, e ele já provou depois disso que continua a cantar e com muita qualidade."

SAPO