O regresso a Cabo Verde e a consagração musical

O regresso a Cabo Verde e a consagração musical

Em 1967 chega a Portugal. Era a primeira vez, mas era como se já vivesse em terras lusas há muito tempo. O cantor tinha como objectivo gravar discos por conta própria. Cedo ficou desanimado, pois as editoras portuguesas não acreditavam no seu valor, tendo a Valentim de Carvalho chegado a gozar com ele, o que o feriu bastante.

Mais tarde as mesmas pessoas que se riram dele propuseram-lhe a edição de um dos seus discos, sobretudo depois de saberem que ele já tinha gravado para a Pathé Marconi, umas das maiores editoras discográficas de França. O regresso à sua terra natal ficaria marcado pelo primeiro grande espectáculo em S. Vicente, abrilhantando ainda com a bela voz da cantora Celina Pereira, que o acompanhou em palco.

Era o começo de uma nova etapa na sua vida. Bana dava início assim a uma carreira no país com vários espectáculos quer em S. Vicente e na ilha de Santiago. As suas actuações na Ilha de Santiago eram uma verdadeira festa para a maioria dos praienses. As pessoas corriam atrás dele, pediam discos, autógrafos e apertos de mão. Bana atingira o estrelato também no seu país.

Montou a sua casa de discos, Casa do Bana. Mais tarde, dedicou-se à exploração comercial do Hotel 5 de Julho. Viajava com frequência para Portugal para comprar discos e revendê-los em S. Vicente. Esperava não só ter lucro, mas também poder viver ali, criando postos de trabalho e valorizando a terra que o vira nascer.

Após a estreia em Portugal em 1969, na inauguração da Casa de Cabo Verde em Lisboa, Bana nunca mais parou de cantar levando a música de Cabo Verde aos quatro cantos do mundo com sua voz firme e com os seus quase dois metros de altura. Um exemplo para a geração de músicos e uma referência mundial da música cabo-verdiana. Bana conquistou vários corações e a sua carreira só é comparável á da "Rainha da morna", Cesária Evória. Neste contexto, Bana pode ser considerado o "Rei da Morna”.

Em Portugal ex-estivador do Porto Grande no Mindelo viria a adquirir um restaurante, que serviu de rampa de lançamento de uma nova geração de talentos da música dos anos 70.

As homenagens em Lisboa

O sorriso, sempre presente, encanta. Encantava sobretudo outra das “lendas” da música cabo-verdiana, o falecido trompetista Manuel d’Novas: “Bana é um homem simples e, como homem simples, é um poço inesgotável de amor, compreensão e solidariedade que ficará para sempre na História da Cultura de Cabo Verde”.

Que o digam as dezenas de músicos e cantores cabo-verdianos a quem Bana abriu as portas em Portugal e que hoje são nomes consagrados: Celina Pereira, Paulino Vieira, Tito Paris, Leonel Almeida, Titina, Zizi Vaz, entre outros, muitos outros.

Conterrâneo de Cesária Évora, cantora 10 anos mais nova, que faleceu em dezembro último no Mindelo, Bana tem sido alvo de inúmeras homenagens. Uma das mais comoventes aconteceu há 20 anos – junho de 1992 -, quando encheu a Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa para celebrar 50 anos de carreira.

Estavam lá todos, ou quase todos, os históricos: Luís Morais, Manuel d’Novas, Celina Pereira, Ildo lobo, Morgadinho, Manel de Ti Djena, Ana Firmino, Zizi Vaz, Fernanda Queijas, Maria Alice, Titina, Leonel Almeida, Paulino Vieira, Tói Vieira, Armando Tito, Djon, Tito Paris, Vaiss, Nabias, Quim e Nando. A noite contou ainda com a actuação dos Alma de Coimbra.

Em 2010, a comunidade cabo-verdiana em Portugal promoveu um espectáculo de homenagem à Bana, um dos grande ícones da música de Cabo Verde. Pelo palco passaram nomes como Leonel Almeida, Luís Fortes, Mayra Andrade, Luz Maria, filha de Bana, Morgadinho, Celina Pereira, Dany Silva, Tito Paris, sobre a orquestração de Zé Afonso.

Odair Soares