Os primeiros passos na Ilha do Monte Cara

Os primeiros passos na Ilha do Monte Cara

Ainda em criança Bana viu o seu pai partir para o estrangeiro, numa altura em que devido à fome muitos foram obrigados a emigrarem-se à procura de uma vida melhor para as suas famílias. Meses mais tarde recebeu a notícia de que o seu pai tinha “Febre de África”.

Na adolescência tinha por hábito jogar à bola na rua com os amigos, apesar de não ser permitido pelas autoridades. Por esta altura já tinha deixado a escola ficando pela terceira classe. O interesse pela música era maior do que pelos livros. Anos mais tarde Bana ficaria órfão após a morte da sua mãe. Tinha 16 anos. Grande parte da sua adolescência foi passado nas ruas do Mindelo, sempre à procura de um biscate para sobreviver.

Foi na companhia dos mais velhos, como Lela Maninha, Marcelo, Tchuf e Djindja de nha Amélia, Pirra e Abílio Duarte, que o Rei da Morna, como veio a ser apelidado, começou a dar os seus primeiros passos, ainda que tímidos, no mundo da música.

Bana e B.Leza – o aprendiz e o mestre

Ao ter entrado para as Forças Armadas no ano de 1952 e apÓs ter gravado alguns temas na Rádio Clube do Mindelo, Bana foi perdendo a timidez e conquistando mais público com a sua voz suave.

Neste período conhece B.leza e dá-se início a uma relação quase que de irmão segundo escreve a escritora Raquel Ochoa no seu livro, "Bana, uma vida a cantar Cabo Verde". "A partir de uma certa altura, a vida de Bana era a vida de B.leza”. Uma relação que durou algum tempo, pois a admiração entre ambos era mútua.

Mas o lançamento definitivo no mundo da música aconteceu pelas mãos de Bana, que o levava a cantar nas longas serenatas da ilha do Porto Grande. Apesar de ainda ser tímido bastava ser lançado que a “sua garganta fazia o resto”, conforme diziam as gentes da ilha, lê-se no livro da autora Raquel Ochoa.

A cantar Cabo Verde desde os 17 anos

O percurso musical de Bana começou a ser trilhado bem cedo ao som de violas e cavaquinhos embalado pela voz que muitos na altura apelidaram de invulgar. Pouco depois, já cantava ao lado dos principais músicos cabo-verdianos, atraindo a atenção daquele que é considerado num dos maiores poetas e compositores cabo-verdianos de todos os tempos, B.Leza, que o ajudou a amadurecer.

Em 1959 elementos da Tuna Académica de Coimbra em digressão por Mindelo, descobriram o homem que viria a dar voz à “Voz de Cabo Verde” em Portugal. Entre esses elementos da Tuna coimbrã encontravam-se Manuel Alegre e Fernando Assis Pacheco. Desse encontro surgiu a ideia de levar Bana para Portugal. Mas tal só viria a acontecer alguns anos mais tarde, em 1969 aquando da inauguração da Casa de Cabo Verde em Lisboa.

Entretanto pelo meio, Bana viajaria para Dacar, onde gravou o seu primeiro disco e foi convidado para um sem número de espetáculos. De Dacar seguiu para Paris, onde gravou mais dois LP e onde permaneceu até 1968, altura em que seguiu para Amesterdão, aproveitando para editar mais dois “Long Play” e dois EP.

Odair Soares